sábado, 11 de janeiro de 2014

Morreu Ariel Sharon

O antigo primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, que estava em coma há oito anos, morreu este sábado aos 85 anos, segundo anunciou a rádio israelita, citando fonte próxima da família.
O antigo governante, que exerceu as funções de primeiro-ministro entre 2001 e 2006, sofreu um acidente vascular cerebral em 2006 que o levou a um estado de coma permanente. Ariel Sharon é um a figura histórica de Israel, tendo sido responsável pela retirada unilateral da Faixa de Gaza.
BIOGRAFIA: ARIEL SHARON SEMPRE A COMBATER
Um dia, quando era ministro da Defesa de Menachem Begin, Ariel Sharon cruzou-se à entrada do Parlamento com Meir Vilner, à data dos factos secretário-geral do Partido Comunista de Israel, e este nem sequer o cumprimentou. Irado com o tratamento de que estava a ser alvo, Sharon agarrou Vilner pelo ombro e perguntou-lhe, olhos nos olhos: "Não me fala?". "Não saúdo quem derrama sangue", respondeu-lhe Vilner. "Está a falar dos palestinianos?", retorquiu Sharon. "Sim. Refiro-me ao sangue dos palestinianos, ao cerco a Beirute, à sua luxúria pela morte". Sharon esperou uns segundos e, quando Vilner já se afastava, disse-lhe: "Um dia perceberá que fui eu quem estabeleceu o Estado palestiniano".
A história ocorreu em 1982 e foi contada, em Moscovo, por Vilner a Mahmoud Abbas. O agora sucessor de Yasser Arafat à frente da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) referiu-a anos mais tarde, num livro intitulado ‘Through Secret Channels' (ndr: através de canais secretos).
Feita à luz da ocupação israelita do Líbano, dos massacres de Sabra e Shatila, numa altura em que Ariel Sharon ainda era conhecido em todos os meios como ‘Carniceiro de Beirute', a premonição do actual primeiro-ministro israelita pareceria disparatada. Mais de 20 anos depois, contudo, Sharon estava a começar a justificá-la: mandou retirar de Gaza; desmantelou inúmeros colonatos nos territórios ocupados, virando contra ele milhares de ‘soldados de vanguarda' do ‘Grande Israel', como os colonos gostavam de chamar a si próprios; reconheceu a inevitabilidade do recuo do Estado judaico e distanciou-se da extrema-direita, deixando o Likud e formando com o seu falso gémeo, Shimon Peres, um novo partido, o Kadima, de tendência centrista.
Pode haver quem diga que o recuo de Sharon tem a ver sobretudo com ‘realpolitik': era cada vez mais difícil e dispendioso manter soldados na Faixa de Gaza que, entre todos os territórios ocupados, era também aquele que os israelitas menos queriam. Há a juntar a esta preocupação uma análise demográfica: em menos de duas décadas, os palestinianos serão inevitavelmente mais do que os judeus dentro das actuais fronteiras do país, deitando por terra o sonho do ‘Grande Israel' preconcebido por Vladimir Jabotinsky. A escolha posta a Sharon seria entre um ‘Grande Israel' dominado por árabes e um Estado judaico mais pequeno. Entre uma nova forma de ‘apartheid', na qual a minoria judaica mandaria na maioria muçulmana, e a aplicação dos princípios do sionismo num território mais restrito.
Paz pela forçaPinchas Wallerstein, antigo colega de Sharon no governo de Menachem Begin, e um dos que mais se opôs ao abandono dos colonatos na Margem Ocidental do Rio Jordão (Cisjordânia), acha que foi a morte da segunda mulher, Lilly, que mudou ‘Arik'. "Ele quer limpar a reputação no estrangeiro", considerou, depois de ver o primeiro-ministro ultrapassá-lo pela esquerda. Mas há mais leituras. Os defensores da estratégia do primeiro-ministro sustentam que ele definiu este caminho há muito tempo e que era sincero quando dizia que não podia percorrê-lo enquanto Yasser Arafat fosse líder da OLP, mas que o faria assim que houvesse condições para tal.
Aliás, foi por isso que Sharon recusou o objectivo do trabalhista Ehud Barak, que admitia ceder parte de Jerusalém aos palestinianos. "Barak não tem o direito de abandonar Jerusalém, que o povo recebeu como um legado", dizia. "O Corão não faz uma única referência a Jerusalém e, na Bíblia, ela é mencionada 676 vezes", prosseguia, recusando a tese segundo a qual teria sido em Jerusalém que Maomé tinha ascendido aos céus, uma vez que os muçulmanos só teriam lá chegado muito depois da morte do profeta. "Só se foi sete anos depois de morrer", gozava.
E era ainda nesse sentido que, já no plano dos princípios, Sharon dizia que a paz só podia ser trocada por paz, nunca por terra. Pouco antes de ganhar as eleições e de se tornar primeiro-ministro, em 2001, foi claro: "O sionismo é físico. Significa que nos defendemos a nós próprios e às nossas terras. Se abandonarmos uma parte das nossas terras, devemos fazê-lo apenas na defesa dos nossos próprios interesses". Ora era precisamente isto que ele estava a fazer, mas na altura que escolheu.
A teoria de Sharon passava pela construção de uma posição de força, a partir da qual seria possível negociar. Elliot Abrams, subsecretário de Estado norte-americano na administração Reagan, defendia a abordagem de Sharon, que comparava mesmo a Churchill: "Ele compreendeu que o caminho para a paz estava na força e não na fraqueza, na firmeza e não em concessões unilaterais".
E foi com base nesta tese que o actual primeiro-ministro israelita construiu toda a sua carreira militar e política. A palavra-chave para lhe compreender o raciocínio não era outra senão beligerância. As divergências interpretativas só podem ter a ver com o que estaria por trás desta conflitualidade: a fruição da guerra ou a construção de uma base para o entendimento.
Duas tesesDurante muitos anos, foi a primeira tese que teve mais vencimento. O filósofo israelita Avishai Margalit escreveu uma vez que "Sharon só conhece dois estados de espírito: luta e preparação para a luta". Menachem Begin, primeiro-ministro traído pelos enganos sucessivos de Sharon durante a invasão do Líbano - o então ministro da Defesa tinha autorização para ocupar o Sul do país, de forma a controlar campos de terroristas que dali faziam incursões em Israel, mas foi avançando até Beirute -, chegou a dizer que ‘Arik' seria capaz de cercar o Knesset (n.d.r.: parlamento israelita) com tanques. Daí ainda que Golda Meir, ex-primeira-ministra, tivesse uma vez dito que Sharon era "um perigo para a democracia".
As próprias intervenções de Sharon indicavam esse caminho sanguinário. "Estou feliz por ter estado com a divisão e não no quartel-general. Estar com os soldados, vê-los lutar, é inspirador", disse Sharon à ‘New Yorker' no rescaldo da Guerra do Yom Kippur, em 1973. A transição para Bill Kilgore, de ‘Apocalypse Now' - o tal que gostava do "cheiro do napalm pela manhã" - é ténue.
Afinal, a mensagem que Sharon queria passar na recta final da vida, era que tudo isto tinha a ver com a paz como objectivo último e que as ordens de desmantelamento dos colonatos em Gaza e na Margem Ocidental o provam. Tommy Lapid, ex-ministro da Justiça de Sharon, crítico dos colonos, ridicularizava as razões que estes apresentavam para estarem optimistas, mesmo depois de terem sido forçados a recuar pelo próprio exército de Israel. "Eles acreditam que se chegará a um ponto crítico na luta onde será inevitável transferir os palestinianos para a Jordânia. A segunda esperança que tinham era na imigração de um milhão de judeus vindos da América. E a terceira, de longe a mais estúpida, é que acreditam que Deus virá em auxílio deles".

Após o assassinato de Yitzak Rabin por um extremista israelita e do afastamento de Sharon, ainda acreditarão mais na terceira esperança.
Estratégia implacável e genialA carreira militar de Ariel Sharon tem uma linha de continuidade em torno de uma noção: hostilidade. Sharon alistou-se na Haganah, um batalhão paramilitar, aos 14 anos. Aos 20, na Guerra da Independência, já comandava um pelotão.
Mais tarde, nos anos 50, destacou-se à frente da lendária Unidade 101, que fez incursões no Egipto e na Jordânia: Sharon liderou o ataque à vila de Kibbiya, onde mais de 40 casas foram demolidas com os ocupantes ainda lá dentro. Morreram 69 pessoas.
Na Guerra dos Seis Dias mostrou-se um estratega notável, ao liderar um contra-ataque de tanques contra os egípcios, em Abu Ageila. E na Guerra do Yom Kippur, em 1973, foi o herói que cruzou o Canal do Suez e chegou a ameaçar o Cairo. Foi a última guerra que fez no terreno.

Sem comentários:

Enviar um comentário